
Direito de conquista
dezembro 2, 2025Qual é a probabilidade de uma guerra de dimensão mundial nas circunstâncias atuais? Que perigo corremos de um conflito atômico que fatalmente aniquilaria a vida em nosso planeta? As indagações podem parecer incômodas, precipitadas, mas não destituídas de lógica.
F az algum tempo que a Rússia vem anunciando essa possibilidade. Vez por outra, seus dirigentes vêm a público reiterar a ameaça de recorrer aos recursos nucleares, caso haja qualquer interferência externa nos seus planos de usurpar os territórios da Ucrânia. Não há segredo sobre quem são os destinatários dos recados. Porém, todos eles se encontram bem munidos das mesmas armas.
Paralelamente às investidas da Rússia sobre a Ucrânia, uma porção de conflitos ganham alento. É o caso do Irã, em sua pretensão de concluir seu projeto atômico para varrer Israel do mapa, enquanto este não hesita em bombardear e matar inocentes; da Venezuela, em se apropriar do Esequibo; da China, a fim de retomar Taiwan; da Índia e Paquistão, pelo controle da Caxemira; da Coreia do Norte, em sua loucura de querer atacar a vizinha, Coreia do Sul, e ver o mundo pegar fogo. Vale lembrar a recente decisão dos Estados Unidos em renovar e testar seu arsenal, que já é imenso, ao mesmo tempo em que resolve acertar contas antigas com a Venezuela e, assim, tantas outras escaramuças pipocando mundo afora. Daí, o perigo. Os russos reconhecem as fragilidades do momento. E vêm nelas a oportunidade de concretizar seus intentos de expansão. O novo reequilíbrio de poderes, que tende a se firmar entre as nações mais poderosas do mundo, incluindo a própria Rússia e países recentemente fortalecidos econômica e tecnologicamente, como a China e a Índia, sustenta sua aposta e estimula suas ambições. Agora, já não existe um polo dominante, hegemônico, absoluto, capaz de impor regras de conduta. Nesse clima de renovação, renovam-se também os ânimos, estratégias e pactos. Do lado dos interessados nas apropriações, é visível e consabido o acordo tácito de apoio mútuo. Como também são claras as manobras dissimuladas tanto para advertir sobre interesses próprios como para incentivar apetites semelhantes. É como se cada um prometesse aos demais que suas vezes vão chegar no momento oportuno. Devido a essas circunstâncias, de comunhão de interesses espúrios, de um lado, e de reação tímida, de outro, parece que há a tendência de uma entre duas situações se materializar. Ambas, entretanto, fundadas na barbárie. A primeira é a guerra. Alternativa possível, caso a Rússia não esteja blefando e as nações ocidentais, especialmente as da Europa, decidam endurecer o jogo e se precaver do avanço russo, no futuro, para além da Ucrânia. Ou, ainda, se outro país contendor resolver implementar sua própria justiça. A outra possibilidade é permitir que o mundo siga seus passos, conforme o ensaio até agora apresentado, com algumas nações engolindo outras e disseminando o terror entre as vítimas. Não vislumbro a eventualidade de retrocesso nesse avanço e de respeito mútuo entre os povos. Entre as duas hipóteses, por enquanto, acredito mais na segunda. E não é porque creio na sensatez do homem. Mas por saber que entre suas paixões figura também o medo. Se ele pudesse infligir o mal sem sofrer suas consequências, talvez a guerra atômica fosse mais viável. Por ora, parece que as armas atômicas são produzidas só para intimidar, não para usar. Nesse caso, então, da segunda alternativa, azar da Ucrânia e de todos os povos desprotegidos que caírem nas pretensões dos usurpadores. No livro A utopia do ser cordial abordei essa tendência do homem para a prática da barbárie. Discorri sobre os mecanismos que o motivam a agir, que o desviam da racionalidade moral e que o tornam muito semelhante aos nossos semelhantes do reino animal. Pesquisando a história, a filosofia, a psicologia, a sociologia, tentei esboçar uma estampa que correspondesse ao perfil aproximado do ser humano. Explorando, especialmente, o contexto da modernidade, procurei ressaltar os esforços do processo civilizatório, nossas lutas, avanços, retrocessos e, enfim, a descoberta de que nossa racionalidade é limitada e que não nos garante a boa convivência. Vale a pena conferir.




