
A Utopia do Ser Cordial
novembro 30, 2025
Uma tensão no ar
dezembro 2, 2025Foram mais de dois anos de agressões mútuas e bombardeios indiscriminados. Uma escalada de estupidez e atrocidades. Que ganho poderão agora contabilizar os empedernidos guerreiros, senão um saldo absurdo de mortes, destruição e sofrimento imputados ao lado oposto? Será que um espólio dessa natureza serve de consolo e justifica a própria desgraça sofrida? Ou o que terão os combatentes aprendido com mais essa experiência, a não ser reiterar o ódio recíproco e elevá-lo a um patamar tal que lhes permita postergar a tradição bélica indefinidamente?
A final, o conflito vem de longa data. E já acumulou muita mágoa, revolta, reivindicações antagônicas, ódios recalcitrantes, uma situação cujo desenlace não se afigura de fácil resolução. Não constitui precipitação chamar de paz duradoura o acordo que se tenta firmar? Até porque a suposta paz em construção parece forçada, imposta, involuntária, desdenhada por ambas as partes beligerantes e articulada por um Xerife menos confiável que os céticos signatários?
Oxalá, a questão crucial do Oriente Médio fosse, de fato, resolvida! E não apenas a do Oriente Médio, mas tantos outros problemas globais com que deparamos hoje em dia. Todos urgentes, e que estão colocando em risco não apenas a paz entre os povos, mas a sobrevivência do planeta terra. Vale relembrar os demais conflitos bélicos ao redor do mundo, entre eles, talvez o mais grave, seja a guerra contra a Ucrânia. E além das guerras explícitas, declaradas, convivemos com situações insidiosas ou pouco reconhecidas, com potenciais para gerar ou agravar conflitos, como o crescimento atual da intolerância política, a supervalorização da temeridade nas ações públicas, a proliferação dos arsenais atômicos. Não podemos nos acomodar diante de fatos como a proliferação de refugiados perambulando por toda parte, o crescente desemprego, o aprofundamento da pobreza e da fome, as desigualdades sociais e entre países, a devastação ambiental, etc.
Todas são questões que a humanidade precisa resolver com urgência. Mas a solução ou contemporização depende de uma tomada de consciência generalizada. Depende de muitas e profundas mudanças no caráter e na atitude dos homens. Demanda esforço, inteligência e bastante boa vontade. Boa vontade como aquela assinalado por Kant, que nasce da razão e estimula o indivíduo a agir com responsabilidade. Penso que mudanças dessa magnitude sejam não apenas possíveis, mas urgentes e necessárias. É um desafio que está posto para todos nós, mas que poucos têm percebido.
Em um livro que acabo de publicar, A utopia do ser cordial, cuido desse assunto. Consultando fontes históricas, filosóficas, psicológicas, religiosas, etc., informei-me de que, de um modo geral, nós, humanos, não tomamos nossas decisões de agir tendo a razão como conselheira. Nós nos guiamos por nossos desejos, por pulsões, por paixões. A razão da qual nos valemos é apenas a razão instrumental, aquela que nos auxilia a deliberar sobre meios para atingir determinados fins. Fins que correspondem aos nossos desejos particulares, que favorecem o nosso apetite. A razão instrumental não questiona a conveniência das ações, não se detém em princípios éticos. Portanto, nossos atos não são comumente pautados pela moral, isto é, não se fundam necessariamente em preceitos que respeitem o outro. Esse vínculo é frágil e precisa ser trabalhado, se quisermos, de fato, melhorar e dignificar a condição humana. Daí, a necessidade de mudança de atitude, da adoção de posturas mais reflexivas, de cultivo da razão crítica. Ou prática, como dizia Kant. Daí, a necessidade de persistir na utopia iluminista de tornar o homem melhor, mais cordial. Vale a pena conferir.




