Erly do Prado

Erly do Prado é goiano do município de Ipameri. Graduado em Medicina Veterinária (Escola de Veterinária da UFG) e Ciências Sociais (FAFICH, UFMG); Especialista em Administração Rural (ESALQ/USP). Mestre em Epidemiologia e Doutor em Ciência Animal (Escola de Veterinária da UFMG). Foi extensionista da EMATER-GOIÁS e professor de Extensão Rural, Sociologia e Antropologia na Escola de Veterinária da UFMG.
Autobiografia
N asci no dia 5 de dezembro de 1951, em um lugar chamado Resfriado. Se existe mesmo acaso, eu diria que tanto a época quanto o lugar foram acidentais. A época me outorga o direito de pertencer à geração baby boomer. Aquela emergente no pós-Segunda Grande Guerra, que se tornou célebre por enfrentar a ordem constituída, em favor da liberdade. Veja que passado glorioso e quão admirável contribuição! Norbert Elias salienta que as ações dessa geração fizeram reduzir o gradiente de poder entre o homem e a mulher, pais e filhos e governantes e governados. Trata-se, portanto, de feito histórico merecedor de registro, reconhecimento e louvor. Lamentavelmente, não sou credor dessa honra.
O lugar em que eu vivia desconhecia quase completamente esse heroísmo. Meu pequeno mundo se situava em outra dimensão da vida. Nossos problemas, nossas lutas e nossos ideais se circunscreviam ao nosso ambiente natural, campestre, tradicional, bucólico, lá no norte do município de Ipameri, em Goiás. Vivíamos muito além dos conflitos das gerações, porque muito distante daquela realidade e dos elementos que a engendravam, dando-lhe ânimo e inspiração.
Quanto ao lugar do meu nascimento, esse, sim, com muito mais convicção posso assegurar que se tratou de um fato episódico. Eu deveria ter nascido em Cavalheiro, no Meu Pequeno Cavalheiro, local onde vivia a família e dois de meus irmãos já haviam nascido. Entretanto, por um desvario momentâneo nas ambições de meu pai, de repente, ele se mete a lidar com o garimpo, sem jamais ter adquirido experiência alguma. Por conseguinte, o negócio se revelou deficitário, e logo a família foi obrigada a abandonar a velha Serra dos Cristais e retornar para seu espaço de origem. A aventura no interior da chapada rendeu apenas um saldo de mais duas vidas. Talvez, motivado por esse reforço no aporte de obreiros, meu pai decide, enfim, se instalar na fazenda Rosalina, à beira da Ponte Feita, próximo à sua foz no rio Corumbá.
Na fazenda Rosalina descobri e me inseri no mundo. Um mundo que ia pouco além daquelas fronteiras. Ali, eu cresci na lida com os animais. Aprendendo seus hábitos, necessidades, interações com o ambiente. Aprendendo a conhecer o próprio ambiente, suas leis, seus benefícios, ofertas, encantos e perigos. Quase sempre andando às pressas, no lombo de um cavalo.
Mas tive primeiro meu tempo de aprendiz. Quando ainda muito criança, idade em que não podia ainda assumir as atividades dos adultos, levantava cedo para alimentar porcos e galinhas, tocar o gado para o curral, conduzir bezerros para a ordenha. Todavia, no final das operações com a extração do leite, eu tinha minha oportunidade de desempenhar trabalho de homem: meu pai reservava as vacas de tetas mais macias, para que eu desenvolvesse as habilidades de ordenhador. Diligência que ele dedicava a cada filho a partir dos 5 anos.
O treinamento deu resultado. Pois, por volta dos 7 anos, na ausência de meu pai, eu já assumia todo o trabalho com o rebanho, inclusive o de ordenha e, às vezes, até de algum fornecimento de leite para fora. Nessas ocasiões, se necessário, minha mãe dava o suporte requerido. De modo que a partir dos anos 1957 e 58, tornei-me um braço-forte na condução das atividades pecuárias na Rosalina. Como disse em o Meu Pequeno Cavalheiro, constituí-me no homem de confiança do meu pai. Como também da minha mãe.
O reino da Rosalina, porém, ficou para trás. No princípio da década de 1960, mudamos para Cavalheiro. A premência de escola para os filhos justificava a mudança, principalmente por causa da minha idade, que ultrapassava os limites recomendados para iniciar. Afinal, eu já completara 9 anos.
Estudei na Escola Isolada de Cavalheiro de 1960 a 1963, cursando o nível primário. De lá, fui para Urutaí (Goiás), cursar o Ginásio Agrícola. E, então, para Rio Verde (Goiás), onde concluí o ensino médio, obtendo o diploma do curso de Técnico Agrícola.
Uma vez “formado”, arranjei logo um emprego. Ingressei na ACAR-GO, órgão de assistência técnica e extensão rural, vinculado ao setor público e subsidiado pelas três esferas da federação.
No início, minha intenção era trabalhar uns tempos, fazer alguma economia, até achar um jeito para continuar os estudos. Eu só poderia depender de mim mesmo. As fases iniciais de treinamento foram ministradas em Goiânia, na sede da empresa, no Setor Universitário. Assim, convivendo ali, assistindo, todos os dias, a movimentação dos estudantes, a maioria da minha idade, eu experimentava dois tipos de sensações aparentemente contraditórias: a felicidade de ter conseguido um emprego razoável e a tristeza por não poder continuar os estudos.
Terminado o treinamento, fui para o campo. Empreguei todos os esforços para ser bem-sucedido. E consegui, penso até que para além da minha dedicação. A tal ponto que muitas benesses vieram por acréscimo, como dádivas. Quando chegou o tempo para continuar os estudos, foi a própria empresa, então EMATER-GO, que me pressionou para ingressar na Universidade, assegurando que me daria todo o suporte necessário. Promessa que foi cumprida. Em contrapartida, eu trabalhava aos sábados, domingos, feriados, férias e à noite, quando necessário.
Trabalhei na Extensão Rural por 22 anos. De julho de 1971 a junho de 1993. Nesse período, além do aprendizado no campo e treinamentos em serviço, tive a felicidade de cursar Medicina Veterinária, na Universidade Federal de Goiás, Goiânia; especialização em Administração Rural, na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz, em Piracicaba, São Paulo e Mestrado em Epidemiologia, na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte.
A crise do Estado dos anos 1980 afetou a Extensão Rural. De modo que em 1993 ingressei, como professor, na Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais, onde me aposentei em julho de 2010. Ali, ministrei aulas de Extensão Rural, Sociologia e Antropologia. E, enquanto trabalhava, fiz o doutorado em Ciência Animal, na Escola de Veterinária, e a graduação em Ciências Sociais, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG. Nesse período, me empenhei ainda em estudar matérias do meu interesse, cursando disciplinas isoladas de História, Economia e Filosofia, oferecidas pelos cursos regulares da Universidade.
Como professor, atuei também nas áreas de pesquisa e extensão. Ambas integradas às disciplinas pelas quais eu respondia. Na área da extensão, implementamos projetos de desenvolvimento comunitário nas áreas rurais dos municípios mais próximos a Belo Horizonte, com a finalidade de treinar tanto os estudantes quanto as comunidades no enfrentamento das questões rurais. Criamos o programa de rádio Fala Bicho que, depois, veio a ser renomeado de Prosa de Bicho; e o programa de televisão De olho nos Bichos. Ambos os programas são transmitidos pela Rádio UFMG Educativa e TV UFMG, respectivamente. Suas matérias são produzidas e apresentadas pelos alunos da Escola de Veterinária e da Escola de Comunicação, com a supervisão dos professores das respectivas áreas. E têm como objetivo oferecer oportunidades de treinamento para os alunos na área da comunicação e promover a integração da Universidade com a comunidade.
Na área da produção bibliográfica, após a publicação de vários trabalhos científicos, iniciei a atividade de escritor de livros.


M inha primeira obra, O fim da picada, retrata a formação histórica do município de São Miguel do Araguaia, em Goiás, sob o impacto da expansão da fronteira agrícola, desencadeada sob os auspícios da política oficial da Marcha para o Oeste.
Produzi um livro técnico, Agricultura Familiar e Extensão Rural no Brasil, destinado a estudantes e profissionais da área; uma obra, Essa coisa chamada amor, só porque o tema me incomodava muito e desafiava minha compreensão; e, ainda, A poética do romantismo caipira e o latifúndio no Brasil, À procura de identidade e Meu pequeno Cavalheiro. Por último, acabo de lançar A utopia do ser cordial. Penso que em todos os livros, em que pese a variedade da temática, existe a intenção da crítica social.


